segunda-feira, 15 de junho de 2015

O sol, o mar e a vida *

Dia lindo, sol a pino. Tempo de ir à praia. Hora de caminhar na areia, ver as belezas alheias. Uma cena. Uma obra perdida, salva, apenas, pela minha retina. Um homem de vestes brancas, rosto coberto por um capuz caminha em minha direção. Para, olha um graveto em sua frente o pega e começa a desenhar. Que cena peculiar! Apresso o passo e me esgueiro sobre o ombro do artista. Apenas uns traços se desenham na areia... Linhas, curvas... Uma forma! Um bebe a caminhar. Paro e analiso os seus movimentos às vezes suaves, às vezes bruscos, mas sempre sem hesitar. As mãos não param e começam a desenhar uma pequena criança em seu quintal... Videogame, peão, bolinha de gude, computador, bola de futebol e outras crianças ao redor. Um sorriso no rosto. Belos momentos. No próximo quadro, canetas, lápis de colorir, borracha, ensinamentos... Um primeiro amor não correspondido. Primeira decepção. E em cada novo traço um historia a se contar. As mãos enfurecidas não param. Adolescência: bebidas, incertezas, violão, musica, teatro, arte... Descobrimento de si. Rebeldia, em sua consciência. Pouca experiência. Tudo em apenas um lugar. Um quarto. “Que obra!”, pensei comigo. Logo veio o crescimento... O trabalho, a caneta, o papel... A câmera. Cenas de terror e amor. Varias paixões...Mas apenas um amor. Tudo em uma cena... “Parece que reconheço estes traços...”, penso. Enquanto as mãos continuam a se mover ferozmente e em cada novo quadro, uma história. Dores, alegrias, decepções, surpresas... Uma vida! De repente uma mudança... Família, amor... Todos distantes. Um quarto, um computador. Ideais... Aprendizados... Sabedoria... Certezas... “Certezas?”, questiono-me. Admiro mais uma vez aquela arte. O bebê, sem saber o que lhe aguarda, vencendo e aprendendo a cada dia, como falar, como andar... O como. A criança aprendendo a contar, a se comportar, o certo e errado, ciências, biologia, o que é o sexo oposto... Como agir. O adolescente aprendendo a se rebelar, a se perder, a buscar a si, a pensar... Como ser. O adulto aprendendo as responsabilidades, a trabalhar duro, a conquistar seu espaço, a construir uma família, a ser dono de si... Como ser sábio. Orgulho, poder, riquezas... Palavras do mundo adulto que começam a aparecer. E no fim da obra três pontos (...). Sem entender encosto meu dedo no ombro do artista para lhe questionar sobre tal final. Ele se vira. Um susto. Olhos verdes ou azuis, óculos pretos, cabelo raspados e louros. Uma imagem de mim. “O sol ainda está a pino, porém logo começará o entardecer e a maré subirá e apenas partes desta obra sobrarão por mais algum tempo. Até o mar do tempo consumir o que sobrar. Se apresse... depende de você como essa história terminará”. Um vazio. Um filme. Uma vida. Desenhada na areia... Esperando a maré lhe carregar para o infinito. Para o nada. Para o desconhecido. Sinto uma dor no ombro. Abro os olhos, meus amigos a me cutucar... Aparentemente um desmaio a beira-mar. “Me dêem licença, tenho muito a desenhar…”, disse e parti.

*Crônica inspirada no texto "In a Season of Calm Weather", de Ray Bradbury

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

O contrário do amor

Dedos no teclado, olhos na tela e uma missão: Escrever sobre o amor. Ou, melhor, sobre o oposto do amor. Missão difícil. Como começar? Do começo, já diriam alguns engraçadinhos.  A idéia de escrever sobre esse tema veio em uma entrevista para um trabalho com o presidente da ONG Médicos de Alma, Gulherme Pavan Vieira.  No meio do bate-papo ele falou que nas palestras que eles davam faziam uma pergunta simples para a platéia: Para você o que é o contrário de amor? E a maioria respondia: ódio. Então ele me disse que na verdade a resposta é o orgulho.  Porque o orgulho? Porque ele nos impede de ouvir nosso irmão, nos impede de ajudar ao próximo, nos cega e nos faz perder o amor. Interessante? Bom eu fiquei impressionado com esse raciocínio.  Já que muitos psicólogos, filósofos, pensadores e maconheiros nos dizem sempre que Amor e Ódio são irmãos. Vem da mesma fonte. Já que quando odiamos estamos dando atenção ao objeto de nosso ódio. Desta forma ele se torna parte de nossa vida. Quando amamos queremos cuidar, quando odiamos cuidamos à espreita esperando o primeiro tombo, mas cuidamos.  Agora quando o orgulho nos domina, não reconhecemos nossos semelhantes. Não nos permitimos conhecer certas pessoas, ou não deixamos com que elas entrem em nossas vidas.  Porque, simplesmente, nos achamos mais do que qualquer um e rotulamos a todos.  “Esse não serve para minha filha porque vai ser pobre”.  “Meu deus não quero ser amiga dela, olha as roupas que ela veste”. “ Vou atravessar pra não ter que cumprimentar aquela chata”. “Ah não... Aquele pobretão ta vindo na minha direção, porque os ricos não chegam em mim?”.  Imagens, rótulos... Futilidades. Isso que vem com o orgulho.  Impedindo-nos de simplesmente conhecer o próximo, de amarmos aos outros. Porque sempre somos melhores que eles em algum sentido.  Como colegas de trabalho que convivem há 20, 15, 30 anos e não se conhecem.  Como casais que vivem juntos por 20, 40, 10 anos e não se conhecem, ou, tem medo de mostrar suas preferências.  E às vezes, as pessoas que estão a nossa volta só precisam de um ouvido solicito e uma palavra carinhosa. “Um gesto pequeno, mas que pode salvar vidas”, disse meu amigo Guilherme.  Às vezes nosso orgulho, não nos deixa enxergar o próximo. Não nos deixa sentir a aflição dos filhos, a dor do irmão, a tristeza da esposa ou do marido, o sofrimento do nosso colega de trabalho...  E assim vamos machucando corações, às vezes, apenas com poucas palavras ou com nossa indiferença. Até que percamos todos e nos encontremos com “a boca escancarada cheia de dentes, esperando a morte chegar”, como diria Raul Seixas. Títulos, dinheiro e imagens desmoronam, mas o amor fica.  Porque aquele que tu ignoras, por orgulho, pode ser o único que futuramente irá segurar tua mão. Não nos orgulhemos do que somos, do que fomos ou do que seremos. Simplesmente vamos amar! Missão cumprida? Talvez, ainda temos que aprender a colocar em prática.