domingo, 13 de janeiro de 2013

Não!

-    Filho coloca esse boné para bater foto. – Dizia a mãe do menino.

-    Não!!!! – Gritava a criança, de uns dois anos, e jogava o boné no chão.

A mãe olhava para o menino a brincar na areia e sentia certa frustração.

- Coloca o boné para a gente bater uma foto bem bonita. – Falou em um tom meigo, enquanto colocava o boné na criança.

- Não! – respondeu e novamente jogou longe aquele boné.

E assim a cena se repetiu por diversas vezes, enquanto tentava eu fotografar o menino brincando no parque. Cada vez que ele rejeitava com tamanha certeza aquele boné, eu percebia a simplicidade perdida no mundo dos adultos. Lembrando dos diversos “sapos” que tive que engolir. Das diversas vezes que me escondi por de trás de minha máscara de pano. “Não”. Uma palavra bastante repetida em nosso vocabulário e tão mal usada. Quantas vezes eu deveria tê-la proferido e por conveniência ou medo não a utilizei? Cada vez que aquela criança rejeitava o boné com tamanha facilidade, por simplesmente não querer usá-lo, mesmo que a mãe insistisse, perguntava-me por que eu não podia rejeitar aquilo que não queria? Seja no trabalho ou na “vida pessoal”. Porque eu perdera essa simplicidade? Talvez o medo seja o grande vilão nessa história. Já que é por medo que aceitamos aquele pedido especial no trabalho que irá colocar por água a baixo o fim de semana planejado com a família. Já que é por medo que começamos a mentir até ficarmos a deriva em um oceano de inverdades. “Não”. Palavra que divide opiniões. Até na hora de criar os filhos. Enquanto alguns entendidos acreditam que a repetição desta palavra na infância tem conseqüências ruins no futuro, outros dizem que ela deve ser usada para impor limites e ensinar.  A cena continua a se repetir em minha frente. E pela ultima vez a mãe fala:

- Usa o boné meu filho, o sol vai queimar teu rosto. – E o coloca devagar na cabeça do menino, que por alguns minutos aceita. Porém quando o sol baixa:

- Não tem mais sol, mamãe. – Diz a criança e joga novamente o boné no chão.

A foto está garantida. Mas os questionamentos continuam em minha mente. E no meio desse deserto de indagações uma palavra surge como um oásis: sabedoria. Sempre podemos dizer “não”, mas nem sempre é sábio fazê-lo.  Temos que aceitar alguns pedidos especiais no trabalho, mas não todos. Temos que contar algumas mentirinhas, mas nunca quando o assunto for sério. Logo a questão é saber equilibrar o “Não” e o “Sim”, buscando sempre a melhor solução para todos os envolvidos na nossa decisão.

terça-feira, 5 de junho de 2012

Identidade

Certo dia, representamos a peça “Seis personagens a procura de um autor”, de Luigi Pirandello, e logo em seguida seria apresentado o terceiro ato de “A pena e a lei”, de Ariano Suassuna. Eu estava pronto para entrar em cena, quando minha diretora, Doriana Búrigo, me entregou um papel e com o que eu deveria falar no intervalo dos espetáculos. Enquanto contracenava com meus colegas, uma parte daquele humilde texto martelava minha mente. “(...) No decorrer deste confronto entre essas duas ‘verdades’ (personagem e humano), fica evidenciado, também, que o que garante a ‘vida da personagem’ e a ‘noção de identidade’ num indivíduo do mundo real é um mesmo elemento: uma ficção, uma construção artificial. Enquanto na personagem esta construção permanece pronta e acabada, no ser humano, por estar vivo, ela permanece sempre indefinida e acabada”. A identidade é uma construção? Ou somos como as personagens, nascemos com uma “cara” e permanecemos com ela? O que é uma identidade? Uma mascara talvez? Compartilho minhas dúvidas... Ao mesmo passo que acredito que somos sim inacabados. Em algumas fases de nossas vidas somos puros, outras raivosos, depois amorosos. E ao passo que encontramos outras pessoas neste caminho tortuoso, vamos criando nossa imagem. Para alguns derradeiros idiotas, para outros espertos. Para alguns arrogantes, para outros simpáticos. E desta forma ganhamos alguma identidade? Sim. Em cada momento de uma forma diferente. Somos obras inacabadas como as cidades. Sempre existe algo para se fazer. Vejo nosso cérebro como o prefeito e seus secretários. Alguns malandros, outros corretos. Porém todos governando a cidade (corpo). Controlando cada célula. Como na cidade, o corpo tem seus policiais, os glóbulos brancos, que tentam impedir a invasão  e o roubo de vida dos bandidos(vírus e bactérias). Algumas vezes sem sucesso. E assim a vida segue até que uma tempestade (sentimento) entre em cena e revire toda a ordem.  No corpo, não se tem uma eleição tão justa como na cidade. Já que não existe tempo para se mudar o prefeito e os seus comandados (idéias). A mudança, muitas vezes não é aceita e algumas outras nações tentando interferir nos negócios, também não. E dentro desta comitiva do poder, ao longo da vida, vamos, também, criando identidades, imagens de nós mesmos. Certas... Erradas? Não sei apenas imagens do que acreditamos ser, imagens artificiais.   E é da observação desta cidade (humano) que saem as personagens. Simples representações de partes de identidades. A vovó amorosa, o neto travesso. A mulher invejosa, o marido traiçoeiro... Imagens, Identidades jogadas ao vento do destino.  Ora heróis, ora vilões.... Ora vencedores, ora derrotados... E no meio deste paradoxo da vida, semeadores de atos que contribuíram para formulação da nossa identidade, em cada cena, neste teatro a qual representamos.