quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

O violeiro

O homem chega à praça, arruma o banco, tira seu violão da capa. Poucas pessoas percebem o seu movimento, mas, para o homem, pouco importa. A felicidade é ainda poder tocar a madeira sagrada. Ele fita-me por uns segundos e com seus dedos de Davi toca o primeiro acorde - tríade de notas dos deuses - e uma voz doce invade meus ouvidos.

A vida bem que poderia se encerrar nessa cena. O violeiro, as aves, o céu azul... Porém não posso ficar por muito tempo. Meu celular toca, vejo que meu chefe está ligando e não atendo. Nada pode estragar esses meros segundos de prazer. O homem com dedos de Davi, continua sua empreitada para chamar atenção. Quer ganhar seu trocado, mas, muito mais, encantar e divertir os transeuntes. Lá, depois Mi, e assim a música vai desenhando ao seu redor um círculo de pessoas ocupadas e estressadas.

Novamente, meu celular toca, realmente não posso mais ficar. Olho meu amigo pela ultima vez. Chego perto dele e deixo uns trocados. Ele me agradece e pergunta: “ Que música você quer chefe?” Penso por uns segundos e respondo: “ Ideologia”. Fico admirando o seu desempenho, digno de qualquer cazuza! “ ideologiaaaaa... Eu quero uma pra viver....”, canto junto com meu amigo para depois dirigir-me ao trabalho. Queria que tudo se encerrasse naquele instante. Ponho-me a caminhar. É o fim... do meu horário de almoço.

quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

O menino

O menino chuta a bola na parede. Ela, por sua vez, volta ao pé do garoto. Neste movimento repetitivo, perdi meus olhos e minha mente. O menino sorria e divertia-se com esta ação infantil. Porém o que é mais importante, o meu julgamento ou o seu sorriso? Como disse, perdi meus olhos e minha mente, que viajam dentro daqueles pés, daquela bola que batia na parede. Vai e vem. Nada atraí meu ser nesse jogo solitário, apenas à diversão da criança só. Onde estão os amiguinhos do menino? Será que estão tomando café? Será que o menino não tem amigos? O seu sorriso me responde: “Pouco importa os outros, sou feliz nessa brincadeira”.

Vai e vem. O jogo continua para meu menino solitário. Vai e vem. Lembro da minha vida. Vai e vem. Esqueço que esqueci meu computador ligado. Vai e vem. O menino segura a bola em sua mão fita meus olhos e sorridente pergunta: “Quer brincar moço?” Meu corpo não se move. Minha boca não produz nenhum tipo de som. Balanço a cabeça negativamente, pensando, quem é mais solitário, eu, que numa tarde de domingo observo-o sozinho sentado na praça, ou ele, que brinca solitário? Vai e vem. O menino volta a jogar e descubro que, ao menos, ele tem a companhia da bola. Vai e vem. Descubro, neste vai e vem, o quanto a vida adulta trouxe-me a seriedade. Vai e vem. Meu menino solitário não precisa de muito para se divertir e sabe dar valor as pequenas coisas. Vai e vem. Essa vida de muitas responsabilidades e pouca diversão me trouxe a solidão. Vai e vem. Vou mudar isso! Vai e vem. Chamo-o e digo: “Posso jogar?”.